22 de out de 2010

Reproduzido do Blog “Pelas Ruas de Belém”, do jornalista Fernando Jares Martins.

PUBLICITÁRIOS NA MADRUGADA

OS CLICHÊS DO CÍRIO NO PORÃO... DO AVIÃO

Madrugada de um sábado, véspera do Círio, no início dos anos 1970, dois jovens publicitários, freneticamente procuram um pacote no porão de um avião que acabara de chegar do Rio de Janeiro. Devia ser entre três e quatro horas da madrugada. Um funcionário da companhia aérea acompanha o trabalho dos dois, não fossem danificar os pacotes dos outros. O maior problema fica por conta da grande quantidade de engradados com flores para decorar a Berlinda de N. S. de Nazaré, na Trasladação daquela noite e no Círio do dia seguinte. E os tais engradados, obviamente tinham que ser levantados com muito carinho. Com essas coisas não se brinca, muitos menos se descuida...

Os tais dois buscadores do pacote éramos Paulo Coelho, o mídia da Mendes Comunicação, e eu, do Atendimento. E por que éramos nós dois a fazer a busca? Simples: pelas regras da companhia, o porão seria paciente e ordeiramente descarregado, os pacotes arrumados nas prateleiras, listados e conferidos pelos “conhecimentos” (o documento que acompanha o objeto em transporte) e, somente depois, entregues aos seus destinatários.

Acontece que tínhamos urgência. Muita urgência. Por isso abriram-nos uma muito agradecida exceção. Mas que procurássemos, naquele mundo de volumes... No tal pacote estavam os últimos clichês dos anúncios a serem publicados nas edições dos jornais locais do dia seguinte, domingo do Círio. Pelo volume das edições, os cadernos especiais deveriam ser impressos ainda na manhã de sábado. E nós procurando os pacotes...

Resumindo: localizamos os pacotes. Para os mais novos, talvez seja interessante explicar o que eram os clichês. Eram peças planas, em metal, zinco, salvo engano, e posteriormente, em plástico (os estéreos), com o objeto a ser impresso gravado em baixo relevo e no sentido inverso, isto é, de trás para frente. Eram utilizados para fazer as chapas, no processo de impressão tipográfica. Esse material era todo feito no Rio de Janeiro ou São Paulo, pois aqui não tínhamos clicherias com a alta qualidade que se exigia para um bom anúncio. E o Oswaldo Mendes não abria mão da alta qualidade. Nem nós, seus aprendizes...

Veja se dá para identificar, nesta foto, o que é um clichê:

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Estes clichês são de anúncios que publiquei na coluna “Comunicação”, que assinei em O Liberal entre 1970 e 1972. Obviamente, nada têm a ver com o Círio.

Dia destes, conversando com o Paulo (Armando Cavalcante) Coelho – que eu conheci antes do seu homônimo ser famoso como escritor – recordávamos o episódio. Acha ele que teria sido no ano em que um Presidente da República esteve aqui no Círio. Pelo que eu pesquisei, Médici esteve em Belém em outubro de 1970. Eu penso que o episódio do avião aconteceu mais adiante.

Mas o interessante desta conversa foi relembrar algo muito pitoresco: os clichês precisavam ser revisados, antes de entregues aos jornais, para ver se tudo estava direitinho. Pacotes na mão, quantidades conferidas, rumamos pelas ruas de Belém, na maior velocidade que meu Fusca65 permitia, para a agência (ainda no edifício Antonio Velho, rua Santo Antonio), onde nos aguardava o Oswaldo Mendes. Foi aí que descobrimos que não estavam lá as provas tipográficas, onde leríamos o que estava gravado nos clichês. A solução: fiquei com os clichês para ler e Oswaldo acompanhava nos textos originais. Só não esqueça que nos clichês o texto fica de trás para diante, o que exige esforço redobradíssimo para ler... Ao final, quando pegamos a última peça (parece que era de página inteira!), surpreeeesa: as provas tipográficas estavam presas nela!

Terminada a revisão, já umas seis e meia, levamos os anúncios para os jornais, onde todo mundo nos esperava, com as máquinas paradas... Eu me lembro da todo-poderosa d. Dayse Soares, da Folha do Norte: ela estava, pessoalmente, a nos esperar, na porta do jornal. Juro que não lembro a bronca, mas que a levamos, levamos...

Mas tudo terminou bem, os anúncios foram publicados, os anunciantes, os jornais e os leitores ficaram felizes e a Virgem foi homenageada. E também assim anda o Círio de Nazaré.

Como não sabemos exatamente em que ano aconteceu essa história, vai cá um anúncio de ano com certeza bem próximo, da Companhia de Cigarros Souza Cruz, no Círio de 1974 (13/10), assinado pela Mendes Publicidade, que atendia a conta institucional e de relações públicas da Souza Cruz na região Norte. A publicação foi no Caderno Especial “Círio - Todo um povo nos caminhos da fé”, do jornal Província do Pará, um trabalho do sempre lembrado jornalista, historiador e escritor Carlos Rocque.

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